Ilan não vê erro no IPCA e diz que inflação baixa é boa

 

Inflação baixa é boa e não tem nada de errado com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2017. A afirmação é do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, na entrevista em que justificou o descumprimento da meta de inflação em 2017. Ele enviou ontem carta aberta ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para explicar por que a inflação oficial ficou em 2,95%, abaixo, portanto, do piso de 3% definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

 

Segundo Ilan, a discussão técnica – se está ou não dentro dos limites do regime de metas – é secundária, pois inflação baixa é benéfica para a população. “O objetivo é manter a inflação baixa neste e nos próximos anos”, disse. Embora tenha ressaltado a necessidade de a política monetária continuar expansionista, Ilan não quis se comprometer com as recentes mensagens do BC, que indicavam novos cortes de juros. “Não estamos em momento de reavaliar” a mensagem de política monetária. Segundo ele, o BC vai olhar o comportamento da inflação e da atividade.

 

Questionado sobre a surpresa com a inflação de dezembro, Ilan disse que com o comportamento mais errático de alimentos e da gasolina, a inflação será mais volátil. “Teremos de olhar a tendência”.

 

De acordo com Ilan o desvio da inflação em relação à meta de 4,5%, de 1,55 ponto, foi quase totalmente explicado pelo comportamento dos preços dos alimentos, que responderam por 1,3 ponto da diferença.

 

“Alimentos tiveram deflação de 4,85% do ano passado, que é boa notícia para a população. Alimento representa parte relevante da cesta dos mais pobres e teve a maior queda da série histórica do IPCA. Essa boa notícia fez com que a inflação ficasse abaixo da meta em 2017”, disse, reforçando a mensagem contida na carta aberta.

 

O BC salientou que a inflação já se encontra em alta e essa trajetória deve persistir até que o índice fique em 4,2% no fim do ano, em torno da meta. Ilan disse não acreditar que isso prejudicará o consumo e o crescimento. Para ele, essa alta na inflação é consequência da retomada do crescimento. “É normal ter essa volta, porque ela vem com a volta do crescimento. O crescimento está associado a essa volta da inflação à meta”, disse.

 

O presidente do BC considera que a política monetária estimulativa “favorece a expansão da atividade e o consequente fechamento do hiato (negativo) do produto, contribuindo assim para atingir as metas para inflação”. Além dos estímulos monetários, Ilan avalia que o descarte de taxas trimestrais excepcionalmente baixas e da deflação do preço de alimentos vão estatisticamente elevar o IPCA.

 

“O processo de flexibilização monetária continuará dependendo da evolução da atividade, do balanço de riscos, de possíveis reavaliações da estimativa da extensão do ciclo e das projeções e expectativas de inflação”, disse.

 

Ao justificar o descumprimento da meta pela deflação de alimentos em domicílio, de 4,85%, Ilan lembrou na carta a Meirelles que esse mesmo item subiu 9,36% em 2016, tendo atingido o pico de 16,79% de alta nos 12 meses encerrados em agosto daquele ano.

 

“A queda de 14,21 pontos entre o fim de 2016 e o de 2017 na inflação do subgrupo alimentação no domicílio contribuiu com 2,39 pontos para a queda da inflação medida pelo IPCA, de 6,29% em 2016 para 2,95% em 2017”, diz o documento. “Se excluirmos do IPCA o subgrupo alimentação a inflação passaria de 5,68% em 2016 para 4,54% em 2017, valor muito próximo à meta”, acrescentou, fazendo discurso semelhante ao do antecessor, Alexandre Tombini, mas na ponta oposta da meta.

 

Apesar da meta descumprida, o presidente do BC destacou na carta que a queda do IPCA elevou o poder de compra da população, propiciou a retomada do consumo e da atividade econômica.

 

Ilan dividiu a atuação do BC em dois momentos: o primeiro ainda em 2016, no qual o BC considerou “necessário” manter o juro em 14,25% (taxa que vinha desde meados de 2015) para “produzir uma quebra na dinâmica do processo inflacionário, em particular, reancorar as expectativas de inflação”, que estavam elevadas depois dos ajustes de 2015 e se “retroalimentava”.

 

“A ação e a comunicação da política monetária foram fundamentais para reancorar as expectativas de inflação”, diz Ilan. Com a inflação em queda e as expectativas controladas, o BC entrou no segundo momento da gestão monetária, marcado pela queda dos juros, iniciada em outubro de 2016.

 

“Durante esse período, a taxa Selic diminuiu 7,25 pontos, para 7% ao ano, atingindo seu menor nível histórico”, diz o texto.

 

Ilan descartou a ideia de arredondar o número da inflação para não precisar escrever a carta e aproveitou para dar uma estocada nas gestões anteriores. “Não vemos problema nenhum em escrever uma carta, explicar, responder às perguntas. Usar a questão do arredondamento para não escrever não é um benefício para nós. Não tem por que ir nessa linha. Poderíamos usar. Talvez outros usariam, mas não é o nosso caso.”

 

Eduardo Campos e Fabio Graner – Valor Econômico