Nestlé vende negócio de água no Brasil

 

A Nestlé fechou ontem a venda de seu negócio de água no Brasil para o Grupo Edson Queiroz, dono das águas Indaiá e Minalba. A operação envolve a venda das marcas São Lourenço e Petrópolis, as fábricas e fontes localizadas em São Lourenço (MG), Petrópolis e Vale do Sol (RJ), Perus e Santa Bárbara (SP).

 

Como parte do acordo, a Nestlé também concedeu ao Grupo Edson Queiroz licença para produção e distribuição da marca Nestlé Pureza Vital, além da concessão para distribuir, no Brasil, as marcas globais premium Perrier, S. Pellegrino e Acqua Panna. A venda foi antecipada ontem pelo Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor. Os contratos de licença são de longo prazo, segundo a Nestlé. E o valor da operação foi mantido em sigilo pelas companhias.

 

O negócio foi colocado à venda pela Nestlé há cerca de nove meses, como parte de um reposicionamento global da gigante de alimentos. Cerca de dez interessados avaliaram a operação, entre locais, estrangeiros, investidores estratégicos e fundos de private equity. A Nestlé foi assessorada pelo Bradesco e o comprador, pelo banco Santander.

 

A Nestlé decidiu concentrar sua operação de água em países onde tem posição de liderança e capilaridade de distribuição. No Brasil, a Nestlé responde por 1,9% das vendas de água engarrafada. O Grupo Edson Queiroz lidera esse mercado, com 10,7%, segundo a consultoria Euromonitor International. A vice-líder é a Coca-Cola (3,5%), seguida pela Pepsico (3%), e pela Danone (2%). Com a aquisição, o Grupo Edson Queiroz passa a uma fatia de 12,6%.

 

A Nestlé informou que o Grupo Edson Queiroz poderá dar o impulso necessário para fazer avançar suas marcas no país. “O grupo Edson de Queiroz tem uma alta penetração nos pontos de venda e mantém uma sólida posição de mercado há muitos anos. A companhia também tem um grande número de fontes, o que garante uma boa logística em todo o país, com preços acessíveis para o consumidor final”, disse Angélica Salado, analista sênior da Euromonitor International.

 

O mercado de água engarrafada no país movimentou no ano passado 10,3 bilhões de litros, com crescimento de 3,7% em volume de vendas, de acordo com a consultoria. Em receita, o mercado avançou 12,9% no ano passado, movimentando R$ 24 bilhões. Para 2018, a previsão é de um crescimento de 3,3% em volume de vendas neste ano e de 5,9% em receita nominal.

 

“Ao lado de Indaiá e Minalba, as marcas da Nestlé Waters Brasil, reconhecidas e respeitadas em todo o mundo, incrementarão o nosso portfólio de águas minerais e bebidas prontas, colaborando para o fortalecimento da nossa relação com os consumidores”, disse, em nota, Abelardo Gadelha Rocha Neto, diretor presidente do Grupo Edson Queiroz.

 

O Grupo Edson Queiroz é um conglomerado familiar fundado em 1951 e dono de uma receita anual que supera R$ 4 bilhões, segundo fontes do mercado. A família Queiroz também tem negócios nos setores de gás, eletrodomésticos, mídia e tintas, entre outros. Emprega 12 mil pessoas no Brasil.

 

Pelo acordo firmado com a Nestlé, os cerca de 300 funcionários da Nestlé Waters serão transferidos para o Grupo Edson Queiroz. A operação deve ser submetida à avaliação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) nos próximos dias.

 

O negócio fechado entre as duas companhias foi anunciado uma semana depois de a Nestlé e a Coca-Cola terem desmentido, em palestras no Fórum Mundial de Água, em Brasília, que estariam interessadas na privatização do aquífero Guarani – reserva de água sob o solo do Paraguai, Uruguai, Argentina e, principalmente, do Brasil. A Constituição diz que águas subterrâneas são bens do Estado.

 

Alimentada por movimentos sociais, a polêmica em torno da água não é nova. O acesso à água limpa e segura e ao saneamento básico são direitos humanos fundamentais, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Os movimentos sociais querem que este acesso seja livre e gratuito. As empresas, que pagam outorga para engarrafar água, discordam.

 

Questionada pelo Valor se esta polêmica pesou na decisão de vender o negócio de água no Brasil, a Nestlé respondeu que não pesou. Em seu site, informa que “onde engarrafamos água, monitoramos quanto usamos para garantir que não haja impacto negativo em fontes locais e aquíferos.” Informa também que trabalha de perto com as comunidades locais para garantir que o acesso das pessoas à água não seja afetado.

 

Vanessa Adachi e Cibelle Bouças – Valor Econômico